“Com o coração muito sossegado”, conforme descreveu seu retorno ao Legislativo municipal na sessão ordinária de segunda-feira (19), o vereador Cirilo Ramão (MDB) não poupou críticas a quem classificou como inimigos. Declarou ter sido preso acusado de corrupção vítima de um “pacto diabólico para destruir pessoas” e questionou a legitimidade da Mesa Diretora da Câmara de Dourados.

Levado à cadeia em 5 de dezembro de 2018, quando foi alvo da Operação Cifra Negra, desencadeada pelo MPE-MS (Ministério Público Estadual) contra suposto esquema de fraudes licitatórias na Casa de Leis, Cirilo estava afastado do cargo o dia 12 daquele mesmo mês, por determinação judicial.

No dia 13 passado, contudo, ele e Pedro Pepa (DEM), também implicado no mesmo caso, foram beneficiados por decisão do desembargador Paschoal Carmelo Leandro, presidente do TJ-MS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) que suspendeu o afastamento e possibilitou a volta de ambos na sessão de ontem.

“Eu retorno a este lugar com o coração muito sossegado. Eu estou muito tranquilo, passeio por esses corredores há mais de 15 anos e quero confessar que estou fazendo um exercício disciplinar para segurar algumas coisas que tanto eu queria dizer. Mas eu fui orientado durante o dia todo para não falar aquilo que eu penso”, afirmou ao fazer uso da tribuna.

Cirilo acusou ter sido “julgado e condenado por um tribunal de exceção que não tem validade e não tem legitimidade”. “Eu fui tirado da minha função no dia 5 de dezembro às 15h40 por uma ligação da então presidente desta Casa que eu ajudei a eleger me contando uma mentira ao telefone dizendo que eu deveria comparecer aqui para assinar um documento do Ministério Público que estava fazendo busca e apreensão nos contratos da Casa e como Mesa Diretora eu deveria estar aqui”, disparou.

A referência foi feita à vereadora Daniela Hall (PSD), com quem adiantou pretender esclarecer os fatos. Procurada pelo Dourados News ainda na noite de ontem, a parlamentar não respondeu às mensagens da reportagem.

Segundo secretário da Câmara até ser preso acusado de integrar um suposto esquema que fraudava licitações no Legislativo, Cirilo chegou a ser candidato à vice-presidência da Casa de Leis mesmo afastado pela Justiça, numa eleição vencida pela chapa concorrente.

“Eu fui levado à prisão porque nós iríamos ocupar com um grupo legitimamente aqui nesta Casa a Mesa Diretora e esta Mesa que está aqui composta é totalmente ilegal a partir desta data, ilegal e ilegítima. Os quatro que aqui assentam-se, se assentam de maneira ilegal e ilegítima e isso eu vou requerer no momento correto”, acusou.

Com sarcasmo, parabenizou “a maneira corajosa que se juntaram para destruir a minha vida”. “Até quarta-feira agora desde o dia 5 de dezembro há uma fala de destruição da minha vida, não é para me tirar da política, é para que o Cirilo morra, que ele acaba. Não é da política, é da vida pessoal”, desabafou.

Eleito em 2012 e reeleito em 2016 com nome de urna Pastor Cirilo, o parlamentar disse que “se eu pudesse falar o que está no meu coração ficaria até 2050 jorrando palavrões aqui”. “Não posso, fui orientado a não fazer, me falaram, oraram, fizeram um monte de coisa aí para eu não falar”.

Ele nominou os membros de seu grupo político ao qual classificou como fiel e aguerrido. “Junior, Silas, Janio, Carlino, Ramin, Maurício Lemes, Juarez de Oliveira, Cido, e Bebeto, Pedro Pepa a quem devo a honra imortal de ser seu irmão, Idenor Machado, esse é o grupo que preciso agradecer muitíssimo e vou fazê-lo até a morte. Os demais, tem uma frase de um filho meu que diz assim: ‘amigos próximos, inimigos mais próximos ainda’”, alfinetou.

Cirilo agradeceu à prefeita Délia Razuk (sem partido) “por ter segurado na minha mão esse tempo todo”, negou que tenha quebrado as medidas cautelares impostas pela Justiça que o levaram para a cadeia pela segunda vez e disse não desejar situação igual à dele “a nenhum daqueles que se tornaram meus inimigos”.

“Quero dizer sobre o pacto que foi feito aqui por um grupo para matar pessoas, destruir pessoas, matar a dignidade e a vida de alguém. Quero parabenizar os algozes por levar a cabo esse pacto que ao momento certo quero esclarecer que isso sim é uma formação de quadrilha realmente diabólica trazida do inferno para cá. Ao pacto que foi gerado por pessoas para sentar a essa mesa por dois anos, por um poder perene”, disparou.

Pouco antes de pedir perdão à Mesa Diretora que não considera legítima e dizer que a Casa de Leis rasgou o regimento interno, voltou a tecer duras críticas aos colegas de parlamento.

“Ao pacto que foi feito, e a isso ninguém investiga, foi feito aqui não para tirar alguém da política, para que pessoas pudessem ser extirpadas. Quero agradecer aos cristãos que estão aqui, que vão às missas, vão aos prédios religiosos e participam de santa ceia e tomam hóstias e dão conselho aos jovens. Um pacto feito para destruir pessoas é a mesma coisa que mandar matar alguém”, decretou.

Mais comedido, Pedro Pepa repetiu ser vítima de uma injustiça, também questionou a legitimidade da atual Mesa Diretora da Câmara Municipal e reafirmou ser um homem público sem nada a temer.

Procurado pelo Dourados News para comentar as contestações à sua gestão na chefia do Legislativo, o vereador Alan Guedes (DEM) rebateu. “A atual Mesa recebeu 10 votos dos vereadores aptos a votar, quórum de maioria absoluta. Uma abstenção e 8 votos contrários”, detalhou.