O salário médio dos trabalhadores brasileiros está praticamente estagnado desde o 2014, conforme mostrou a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada nesta terça-feira (30) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Em números já corrigidos pela inflação, o rendimento médio mensal subiu de R$ 2.259 no primeiro trimestre de 2018 para R$ 2.291 no mesmo período de 2019: ganho real de 1,41%.

No mês de fevereiro, a estimativa do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) era de que o salário mínimo necessário para custear todas as despesas de uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 4.052,65 — o valor nominal mais alto desde 1994, início da série histórica.

Em meio ao desemprego, que atinge 13,4 milhões de brasileiros, fica ainda mais difícil manter as contas domésticas em dia. Um morador da casa acaba arcando com as despesas dos demais parentes.

“As novas vagas de emprego que estão surgindo têm salários menores, às vezes com trabalho intermitente. Há também os trabalhos informais. Por outro lado, os preços estão crescendo, principalmente aqueles que as famílias são obrigadas a suportar, como gás, luz, água, combustível e transporte público”, explica a supervisora de preços do Dieese, Patrícia Lino Costa.

Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que o salário médio de demissão de trabalhadores com carteira assinada em março era de R$ 1.706,37. Por outro lado, o salário de admissão no mesmo mês era de R$ 1.571,58 — diferença de 8,6%.

Para o economista do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) André Braz, em momentos como este, de desemprego em alta, quem está empregado “perde o poder de barganha frente ao empregador”.

“Há uma fila de pessoas para ocupar aquela posição, o que força o trabalhador a aceitar aquele salário ou adiar correções salariais”.

Ele acrescenta que nas negociações salariais, há empregadores que apenas repõem a inflação passada. “O que já significa para o trabalhador uma estagnação”.

“Mas em outras categorias, é imposto um percentual menor do que a inflação passada e consequente queda do padrão de vida.”

Despesas básicas mais caras

“O que se tem hoje é um custo de vida elevado com uma inflação baixa. Ano a ano o salário vai acompanhando menos a inflação… isso força as pessoas a mudarem o padrão de consumo”, observa o professor Wilson Amorim, da FEA-USP (Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo).

No fim do ano passado, o R7 mostrou que o preço do botijão de gás de cozinha havia subido três vezes mais do que a inflação entre 2017 e 2018, chegando a custar R$ 70.

“Essa alta do botijão de gás prejudicou muito as famílias de baixa renda, que gastam 30% do salário com alimentação. Houve casos de gente tendo que cozinhar em fogão à lenha, ou seja, um retrocesso”, diz a supervisora de preços do Dieese.

A conta de luz subiu em média 14,86% nos últimos 12 meses encerrados em março, segundo dados do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), que mede a inflação para quem ganha até cinco salários mínimos. O transporte público urbano acumula alta de 7,1% no período.

Além disso, os alimentos básicos como feijão  e frango estão mais caros. O feijão carioca subiu 135,32% em 12 meses; a carne de frango em pedaços acumula alta de 14,03%; e a ave inteira, 8,65%.

As frutas em geral ficaram 17,31%, enquanto tomate e cebola subiram cerca de 29%.